Geral

Realidade e desafios do agronegócio foram apontados em pesquisa

Trabalho foi coordenado pelo professor Sérgio Kuhn, da UTFPR de Dois Vizinhos.

Realidade e desafios do agronegócio foram apontados em pesquisa
  • 22 de Abril de 2026
  • Foto: Portal Educadora

  • 58

Uma pesquisa apresentou um diagnóstico do perfil socioeconômico e produtivo rural, apontando perspectivas e sugestões das famílias de Dois Vizinhos. A ação foi coordenada pelo professor Sérgio Kuhn e realizada por meio de uma parceria entre a Associação Empresarial de Dois Vizinhos (ACEDV/CDL), por meio do plano de desenvolvimento DV 2040, com a UTFPR, Prefeitura, Cresol, IDR e Sindicato Rural Patronal. “Foi um trabalho de formiguinha com os alunos de Agronomia da UTFPR-DV, dentro da disciplina de economia e política agrícola. Visitamos 1.220 famílias rurais em 24 comunidades, o que representa praticamente 60% das famílias, se levarmos em conta os dados do Censo Agropecuário de 2017. A realidade é bastante preocupante”, resumiu o professor em participação no programa Sete e Meia, da Rádio Educadora FM.

O professor esmiuçou os dados. “Fizemos levantamentos e abordagens em diferentes âmbitos. Se olharmos para a caracterização, por exemplo, temos entre 5 mil e 5,5 mil pessoas vivendo no campo, sendo 52% do sexo masculino e 48% do gênero feminino. Inclusive, esse tem sido um problema porque, principalmente, as jovens estão indo embora do campo, e os meninos ficam e têm dificuldade de encontrar parceiras para casar. A média de pessoas por residência é de três, e percebe-se nitidamente o envelhecimento rural, situação que nos traz interrogações sobre o futuro”, completou.

Quanto à escolaridade, 30% dos agricultores concluíram o ensino fundamental, 21% o ensino médio e 8% o ensino superior. A maioria das famílias (51%) tem alguém que trabalha na cidade. “Esse é o novo rural brasileiro, em que as pessoas estão buscando uma renda urbana para somar e garantir melhores condições de vida. Eles trabalham em frigoríficos, na construção civil, operando máquinas ou por diárias. Também temos 63% das famílias que recebem algum benefício do INSS, seja aposentadoria, pensão por morte, auxílio-acidente, auxílio-doença ou o Bolsa Família”, disse.

Renda

De todas as famílias pesquisadas, 54% têm renda de até R$ 5 mil. “Esses valores, em alguns casos, somam o resultado da produção e o emprego urbano. Isso ajuda a explicar o êxodo rural, já que os filhos veem os pais lutando para ter uma vida adequada e percebem que o recurso é baixo. A maioria das propriedades é de até 5 alqueires, e isso é pouco, levando em conta que nosso relevo é acidentado. Eu sou professor de economia e insisto com os alunos que, para viabilizar as propriedades, temos que buscar atividades que exigem pouco espaço e remunerem bem, como olericultura, fruticultura ou agregação de valor, porque a soja, o milho e o trigo não sustentam famílias em pequenas propriedades”, indicou.

A sucessão familiar também foi pesquisada. “Dos entrevistados, 40% destacaram que vão passar a propriedade de pai para filho, enquanto 32% dizem que não e 28% afirmam que talvez. O ‘não’ e o ‘talvez’ estão muito altos, e vemos um movimento em que grandes e médios produtores estão comprando as terras dos pequenos”, explicou.

A pesquisa apontou ainda que muitas famílias abandonaram a produção de leite, mas sinalizaram que voltariam à cadeia produtiva caso houvesse mais incentivo. Os agricultores também manifestaram interesse em produzir peixes, frangos, hortaliças (olerícolas ou verduras), ovos, galinha caipira ou suínos. “Entre os pontos fortes destacados pela maioria dos produtores estão a questão da água, condições de vida, religião, clima, solo, meios de locomoção, a casa e a comunidade. Já os pontos fracos apontados foram o turismo rural, mão de obra (disponibilidade/carência e qualificação), erosão, estradas, burocracia, energia elétrica, festas e eventos e segurança pública. As principais sugestões das famílias são voltadas para a melhoria e manutenção das estradas, fortalecimento das comunidades e suas ações/promoções, além de saúde, segurança, água e energia elétrica.”

Futuro

Perguntados sobre o futuro, os pais apontaram que pretendem permanecer nas propriedades, buscar melhoria na qualidade de vida e bem-estar, qualificar a produção e formar os filhos. Já os filhos destacaram que querem estudar, melhorar a produção e, parte deles, pensa em permanecer nas propriedades ou buscar emprego na cidade. “Fica a sugestão para pensarmos em programas para melhorar a natalidade, incentivar mais filhos por família e melhorar a infraestrutura rural (estradas, conectividade de internet, energia elétrica — trifásica e com redução de quedas —, além da questão da água, educação, agroindústrias para agregar valor à produção e segurança pública).”

Grupos de trabalho

A pesquisa ajudou na criação de grupos de trabalho. “Nós criamos o grupo do leite, que funciona muito bem, e o grupo da agricultura familiar, tentando motivar os supermercados a comprar produtos locais, porque, atualmente, nossa agricultura está muito voltada para a cadeia do frango, seja para abate, pintainho, ovo para eclosão ou cama de aviário. Muitos avicultores abandonaram a atividade porque as integrações exigem muitos investimentos em inovação, os filhos estão indo embora, os pais estão envelhecendo, e isso mudou o cenário”, concluiu.

Fonte: Portal Educadora