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Vícios em apostas: epidemia silenciosa que assola diversos lares brasileiros

Duovizinhenses estão buscando criar grupo de apoio para tratar sobre o tema.

Vícios em apostas: epidemia silenciosa que assola diversos lares brasileiros
  • 25 de Maio de 2026
  • Foto: Inteligência Artificial

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Na última sexta-feira, 22, o Programa Sete e Meia, da Rádio Educadora FM, recebeu Odinei Martini de Lima e o psicólogo Adilson da Rosa para falar sobre a ludopatia, doença caracterizada pela compulsão incontrolável por jogos de azar. Na ocasião, Odinei falou sobre a sua luta para abandonar o vício em apostas e cassinos online e a intenção de montar um grupo de apoio com duovizinhenses que sofrem do mesmo problema.

De acordo com dados do estudo A saúde brasileira em jogo, divulgado em dezembro de 2025, o Brasil teve 17,7 milhões de apostadores em apenas seis meses no ano passado. Os pesquisadores se basearam em levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para estimar em 12,8 milhões o número de pessoas em situação de risco em relação às apostas. O Banco Central, por sua vez, estimou que R$ 240 bilhões foram destinados às bets em 2024. Vale ressaltar que as casas de apostas online foram legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023, passando a pagar maior volume de impostos apenas a partir de 2025. O mesmo levantamento apontou que as apostas estão gerando uma perda de R$ 38,8 bilhões aos cofres públicos, sendo grande parte dos valores relacionada a impactos na saúde pública.

Durante a entrevista, Odinei trouxe à tona o relato da luta contra a dependência, que afetou a saúde financeira e a estrutura familiar. “Tudo começou há cerca de cinco anos, com as apostas no futebol. Você fazia apostas sobre quem ganhava o jogo, quantos gols. Depois entraram os cassinos, que são o que está devastando, silenciosamente, muita gente, inclusive eu. O que é isso? Você coloca o dinheiro lá, aposta e perde tudo. Não existe ganhar. Isso foi crescendo na minha vida e chegou um ponto em que eu tive que dar um basta, porque leva tudo o que você tem. Já falaram sobre alcoolismo e drogas, mas isso é pior, porque se você acorda às 2h, pega teu celular, o jogo está lá. Se você tem dinheiro, joga. Está na palma da mão”, destacou.

Ele falou sobre como tem sido a luta contra o vício. “O primeiro passo é buscar tratamento. Depois, você não pode ter controle da própria conta e o terceiro passo, mais radical, quando não funciona, é deixar de ter celular. Se não tem celular, não entra em aplicativos, contas de banco ou jogos. Hoje, eu tenho cadastro em todas as bets, em tudo o que você imaginar. Eu abria uma, jogava, perdia e fazia a autoexclusão, que não permite entrar naquela plataforma por cinco anos. Aí fazia cadastro em outra. Agora o governo disponibilizou, no Gov.br, um bloqueio: você vai lá, cadastra e bloqueia todas as plataformas autorizadas. Se eu coloco o CPF, não entro nas regularizadas, mas existem as chinesas, de outros países, ilegais, que não são daqui e só roubam o dinheiro do brasileiro. Eles estão levando milhões. É uma epidemia silenciosa. Eu resolvi dar a cara a tapa porque existe muita gente sofrendo, com medo e vergonha. Eu não quero aparecer, não quero que as pessoas tenham dó, mas a minha ideia é encontrar essas pessoas e fazermos reuniões, porque estou em um grupo de WhatsApp com pessoas de todo o Brasil. Quero que tenhamos algo aqui para nos reunirmos e conversarmos, porque temos relatos de pessoas que perderam muito. Eu perdi bastante dinheiro, mas também perdi a paz e o sono, não estou cuidando da minha saúde. Eu já cogitei o suicídio duas vezes, mas tenho duas crianças maravilhosas. Como vou deixar duas crianças lindas por causa de um vício? Só quem está no vício sabe”, explicou.

O psicólogo Adilson da Rosa, que também é secretário de Assistência Social, está acompanhando o caso de Odinei. “Parabenizo o Odinei pela coragem de estar aqui e se expor em um assunto tão delicado. Assim como o álcool e outros tipos de drogas, existe muito julgamento. As pessoas falam que basta ter vontade de parar, mas não é tão simples. Hoje, tenho atendido vários pacientes com problemas relacionados a jogos. Eles acabam perdendo muito e, assim como em outros tipos de dependência, isso não afeta apenas quem joga, mas toda a família, sejam pais ou filhos, com perdas significativas que vão além das questões econômicas. Quem está jogando perde todas as economias, vende o patrimônio que possui e, em um segundo momento, passa a utilizar recursos dos pais ou de outros familiares. É isso que temos observado em Dois Vizinhos. Não falo especificamente do Odinei, porque ele optou por conceder esta entrevista para conscientizar a população. Isso demonstra a força que ele está tendo e outras pessoas podem olhar para esse caso e buscar apoio, porque é possível sair disso também. Temos casos que chegam ao suicídio, então precisamos ter cuidado. Tudo acontece muito rápido, as perdas são grandes e a pessoa acaba se vendo sem saída”, disse.

Adilson ressaltou que quem sofre com o vício pode procurar uma unidade básica de saúde, que disponibiliza atendimento gratuito e sigiloso por meio da Rede de Atenção Psicossocial (Caps).

O vício no cassino digital está no bolso

Odinei destacou que a grande exposição das casas de apostas na mídia prejudica quem está lutando para sair do vício. “A própria mídia: o Campeonato Brasileiro é patrocinado por uma bet. Isso já incentiva a apostar. Você entra no Instagram e tem influencer falando, publicidade em todo lugar. Está prático, fácil. Tudo começa pela curiosidade e pela ideia do dinheiro fácil. Você vai ganhar. Realmente, você ganha, se for centrado, ganha um pouco e sai. Volta depois de um tempo, mas quem começa a perder e tenta recuperar, depois que desenvolveu o vício, não é fácil. Qualquer dinheiro que entra você joga para ganhar mais e, quando chega no objetivo, não sai, não tira o dinheiro. A mente já fica perdida. É um vício. O primeiro pensamento é jogar, buscar ganhar, mesmo sabendo que vai perder”, concluiu.

Fonte: Portal Educadora